CRÍTICA DE “COMO SUPERAR O GRANDE CANSAÇO?”, DE EDUARDO FUKUSHIMA (SP)
Por Heloísa Sousa (Farofa Crítica/RN)
Em tempos de um mercado da arte cada vez mais sedento por novas estreias, em uma apelação
neoliberal pela novidade que cobra dos artistas um nível de produtividade totalmente incoerente
com a disponibilidade de tempo e estrutura para maturação das investigações artísticas;
presenciar um gesto curatorial que reposiciona sua mirada para obras com mais de dez anos de
existência chega a parecer vanguarda. Se a manifestação vanguardista se baseou na novidade
como categoria estética e na ruptura com a tradição, como elucida Peter Bürger em sua análise
da teoria da vanguarda, a captura dessas atitudes pelo mercado da arte, faz ruir o projeto de
vanguarda em si. Se a novidade passa a ser aceita como norma e institucionalizada como moda,
ela perde sua potência de desestabilização do próprio sistema e revisão crítica dos procedimentos
e obras artísticas legitimadas. Nesse sentido, olhar para obras artísticas estreadas anos atrás soa
como um contragolpe muito interessante de ser observado.
“Como superar o grande cansaço?” é uma obra coreográfica de Eduardo Fukushima (SP)
estreada em 2010 e que possui uma relação direta com o repertório do artista e com suas
investigações em torno do corpo em dança e de uma criação minimalista. As artes da cena, como
artes vivas, promovem outra experiência estética ao reapresentar um espetáculo estreado há
catorze anos, pois a própria presença dos corpos, dos contextos e dos discursos em tempo real
atualizam a concepção inicial da obra. Seguindo uma proposição minimalista já característica das
obras de Fukushima que opta para uma síntese das formas e cores na imagem cênica, tendo seu
desenho baseado em uma extensa metragem de linóleo branco e um corpo que dança com
vestes escuras e modelagem simples como as usadas em salas de ensaio; Fukushima dança
movimentos que se repetem e materializam alguma exaustão pela própria reincidência. Ele
começa como um Sísifo, em um movimento quase “idiota” de autoflagelação, que já se inicia no
insuportável e derrete. O sujeito não se mantém.
Mas, ainda assim, tenta e se levanta, se reposiciona e faz novamente. As ações de repetição
parecem um vocabulário que ele vai dançando com algum improviso. Mas, sendo sempre os
mesmos movimentos, embora seja uma repetição que não dança a representação da rotina. Os
movimentos em si derretem, escorrem pelo corpo e pelo espaço, remetem a alguma
funcionalidade profissional ou estratégias de sobrevivência e se suportam sobre os braços do
artista até ele pausar. São os desenhos desses intervalos como parte da coreografia que tornam o
percurso dançado suportável. A pausa, aqui, ganha conotação dúbia entre a insuportabilidade e o
intervalo. A pausa então denota o limite ou permite que ele se estenda? Ao final, ele se retira. Ele
foi até onde dava. Inevitável não lembrar das análises teóricas de Theodor Adorno sobre o tempo
livre e a captura do ócio pelo sistema capitalista para somar aos tratados filosóficos mais recentes
de Byung Chul-Han que foram tomados como referência pelo próprio artista.

O título da obra é uma pergunta e isso não pode passar despercebido, pois reitera que o artista
dança uma dúvida e não um manual de instruções. A escolha por adjetivar o cansaço como
grande também se materializa na extensão do palco branco percorrido quase em sua inteireza por
Fukushima. A relação com o cansaço é também espacial.
O que espanta nessa obra de Fukushima é sua absurda atualidade. Mesmo com uma distância
temporal de mais de uma década entre sua estreia e a apresentação assistida na programação do
Junta Festival neste ano de 2024, o artista parece dançar algo que só se verticaliza ainda mais na
nossa realidade. Arrisco dizer que, não apenas o desejo por dançar algo desse cansaço, mas
também a sua forma em dança faz com que Fukushima tenha criado um clássico da dança
contemporânea brasileira. Uma obra artística que consegue dizer sobre uma recorte temporal que
é essa contemporaneidade globalizada e capitalista que se esquematiza de modo semelhante à
cena icônica de Charles Chaplin em “Tempos Modernos” (1936), mas dessa vez sem as máquinas
ou as divisões em séries; pois, para dançar esses tempos contemporâneos basta a automatização
“independente” dos corpos trabalhadores e a observação vigilante de sua própria classe.
Ou seja, ao invés de parecer uma obra datada ou apegada às características formais e/ou
discursivas de um outro tempo – mesmo que esse tempo seja apenas dez anos atrás, lembremos
que nossa relação temporal tem estado cada vez mais acelerada e que os anos parecem
representar abismos geracionais cada vez maiores -, a obra parece radicalmente contemporânea.
Não apenas porque a condição de exaustão funda a lógica da exploração capitalista desde os
tempos da revolução industrial; mas porque a abstração e a simplicidade imagética operada por
Fukushima cria uma dança que sintetiza as pulsões do corpo e uma paisagem conceitual
imanente.

Preciso dizer também sobre o quanto o trabalho de Fukushima antes me parecia incoerente.
Assistindo obras como “O Homem Torto” (2013) e “O que mancha” (2021) eu tinha a sensação de
que não havia nada a ser percebido ali; a simplicidade da cena me remetia ao ponto inicial da sala
de ensaio onde tudo está em devir e diante dessa paisagem parecia que não havia nada a ser
visto. Eu não sabia para onde olhar, e ultimamente tenho pensado bastante na dança como uma
cena que exige do público novos modos de observação, uma recalibragem da retina, um
reposicionamento do globo ocular – e falo disso em uma dimensão física, brincar com as direções
e os des(focos) do olhar. O tanto que se falava do trabalho artístico de Fukushima me dava a
certeza de que tinha algo que eu não estava vendo.
Eis que decido citá-lo em uma aula de dança para alunos do ensino fundamental, em uma escola
particular em Parnamirim (RN). Decido apresentar o vídeo de um portfólio que apresenta as
criações dele em parceria com a artista Beatriz Sano (SP) – a mesma dupla que dirigiu o mais
recente trabalho da Cia. Giradança (RN) e ali, com os detalhes da câmera, com os diferentes
planos e a possibilidade de repetição do vídeo, algo se deu na minha percepção. Primeiro ponto é
o distanciamento da espetacularidade – algo que parece tão viciado nas teatralidades que pode
ser um dos pontos que faça com que alguns artistas e espectadores de teatro tenham dificuldades
com a apreciação da cena em dança. O outro ponto que notei é que o trabalho do Fukushima
apresentava mais sentidos quando eu enxergava o corpo como espaço, e o movimento como um
circuito dentro desse corpo; quando meu olhar escapava demais e buscava toda a amplitude da
caixa cênica, a coisa se esvaziava de maneira tremenda.
Acho interessante destacar como a questão do tempo parece ter permeado minha experiência de
acompanhamento desse festival, como um ponto de discussão latente. O modo como o tempo
atravessa os processos criativos e as dinâmicas do mercado em arte apareceram insistentemente
em conversas informais com a crítica de arte Alana Falcão (BA) e ainda na fala sobre produção
cultural de Gabi Gonçalves, gestora da Corpo Rastreado (SP). Debater sobre o tempo como
demanda, como recurso imaterial e concreto de produção (para além de demandas muito
concretas e materiais como o espaço, os corpos e o dinheiro), dançar o tempo e curar obras
desafiando o tempo como valor de mercado. Talvez a pista seja sobre insistir no desvio da
imediaticidade – sobreviver é urgente, criar é fundamental, estrear não. As estreias possuem seu
próprio tempo, elas são inerentes, mas não se deve condicionar a existência do artista ao ponto
do aplauso. Isso não quer dizer uma recusa aos momentos de encontro entre o artista e a plateia,
as estreias acontecem (da ordem do acontecimento) como ponto inevitável de um trajeto, mas não
como perseguição desenfreada ou estruturação sublime dos sentidos. Adentrar às salas de
ensaio? Documentar processos? Redirecionar o olhar para observar os trajetos talvez sejam
pistas consistentes que fazem eco ao gesto curatorial marcante desta edição do Junta.
FOTOS: Victor Martins