A Residência Mulher Melancia, proposta por Janaína Lobo no JUNTA EXPANDIDO, produziu coletivamente  reflexões, imagens, vídeos, áudios, trazendo a tona questões ainda pouco discutidas fora das rodas de mãe . Ao final, partilhamos alguns rastros performáticos de por onde passamos nestes encontros, feitos de diversas presenças, diversas mulheres, diversas frutas. Um drive e um grupo de zap virou nossa morada acolhedora temporária. O encontro foi real, foi profundo, e segue acontecendo nas criações e ações de cada artista.

O seu feminismo acolhe a maternidade?

Na sua planilha de custos tem suporte materno?

Como ser partner de uma fruta?

Por onde começar a falar dos tantos não ditos da maternidade?

Que solidão você compartilha?

(a do auto conhecimento, solidão de ser humana, de ser artista, música, a da mulher selvagem, a solidão de se descascar e se repartir, estrelas, a solidão de ser doida, a da dificuldade de me descascar, me abrir, tenho uma escrita solitária, de ser artista, solidão da maternagem separada, desenhar, sonhar, de ter poucos/as amigas, vácuo da mente, café, a solidão compartilhada é solidão???, solidão de ser diferente da tradição, observar o céu da minha janela, solidão a dois de dia, da carga mental, tirar foto, a solidão de não ser vencedora, Clarice Lispector, banhos e chuveiros, argilas, de não saber lidar com algumas solidões, solidão de viver num mundo capitalista onde ter é mais enfatizado que ser, chorar sendo assistida no ponto de ônibus quando o que eu gostaria mesmo era chorar sozinha, orfandade, da criança, da maternidade sozinha, do silêncio, uma meia que eu perdi um pé, Solidão ou solitude?)

Solidão compartilhada é solidão?

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Aqui, uma cartografia de imagens/pensamentos do processo, para passear sem pressa e com apetite.

 

“É cansativo pensar na minha mãe, mas de vez em quando abro uma porta que me liga ao seu país, mesmo que não seja diretamente com ela.
Eu ficcionalizo a identidade, minhas possíveis vidas com ela.
Eu imagino minha silhueta no meio, tudo emocional, genético e anedótico que vem dele está no escuro.
Li mais português porque li as cartas dela na minha infância, mas nunca falei com ela.
Nas noites em que não entendia por que meu filho não parava de chorar e chorar, também pensava: eu também teria me abandonado.
Em meu desejo de deixar a maternidade, eu a redescobri e a compreendi.
Agora também o redescobri graças às frutas, falamos muito pouco (nos escrevemos) mas agora falamos sobre mixiricas, tangerinas, mimosas e ponkan
A certa altura, senti que criar meu filho era criar a mim mesmo, acho que me gravo falando português para me ensinar isso também.”

 

Mulher Mixirica

“Mão na fruta. Fruta na mão. Manipulação. Animação. Fruta pessoa.
Pessoa na fruta. Fruta no corpo. Corpo fruta. Equilíbrio. Desequilíbrio. Fruta rola. Partes do corpo. Fruta parte.
Fruta no umbigo. Um em mim. Tomate. Ventre, útero, ovário, vagina, quadril.
Cheiro tomate. Tomate furado. Sugar o sugo. Chupar o líquido, Lamber. Tomate boca cheiro.
Tomate na faca. Faca no tomate. Raspa, desliza, não corta. Ameaça. O que digo que vou e não vou. O que digo que faço e não faço. O que ia, mas não foi. Vai? Ameaça. Quase pulo. Quase corro. Quase corto. Quase. Vai?
Então corto. Então chupo. Então como. Não tudo. Como.
Por parte, como. Não corro.
Ainda.”

 

Mulher Tomate

 

 

“Apesar da pouca idade eu já havia sido ensinada que não me cabia ser mãe e que provavelmente apanharia muito mais caso estivesse prenha. Vivia me acocando, não poderia ter aquele bebê. Eu não lembro mais de muita coisa, não sei o que houve com aquele feto que não teria como sair de mim. Talvez na menarca tenha sido expelido, talvez ainda esteja calcificado aqui. Um par de anos depois viria a terceira gestação de minha mãe. Dessa vez eu tive todo o cuidado pra não causar um segundo aborto, eu pedi tanto um irmãozinho pra eu brincar…

Foi uma luta grande pra escolher o nome. Se fosse menina ainda seria Vitória Régia. Meu pai queria outro nome bíblico, sugeriu Naum. Odiava esse nome, pensei em todas as piadas que eu faria com alguém chamado Naum. Sugeri Isaac e assim se fez. Abraão e Isaac. Nenhuma mulher. Eu engravidei muitas outras vezes. Pari drag queens, pari não bináries, pari travestis. E cuidei de todas elas. A filha que minha mãe não teve sempre esteve. Abraão significa pai de muitas nações e talvez por isso eu tenha sempre essa vontade de prover. Me fiz Frida. Juntei todos os meus cacos, amarrei com um barbante na ponta de uma lança de Ogum. Não, não como uma homenagem à Kahlo (embora ela mereça todas as homenagens pela mulher que foi) mas como um resgate de algo que estava no fundo da minha cabeça. Essa “Frida” me visitou. Frida significa paz. Acho que me criei Frida pra dar paz a mim mesma. Uma eterna gestação. Talvez eu seja meu próprio filho e a filha que minha mãe tanto sonhou. Hoje sou ata. Fruta doce, suculenta e nutritiva. Casca grossa e escamosa e pra comer precisa paciência. Tenho muitas sementes e fé no que virá.”

 

Mulher Ata

 

Vídeo: mulher salada de fruta

“Pára que ele vai nascer pai. não deu tempo. sentir minha bacia se abrir três vezes, numa rápida sequência, na passagem da sua cabeça, seus ombros e sua bacia. a bacia do meu filho passando pela minha bacia. num piscar de olhos ele se lançou nas mãos da avó e todos – minha mãe , meu pai e seu pai, gritaram comemorando, rindo, fazendo festa… pedi silêncio. enfiei antônio por dentro do vestido e fiquei falando baixinho, bem baixinho com ele, que tudo tinha dado certo, que estávamos, ainda, juntos ali. e que sempre estaríamos.

no hospital já havia um exército de enfermeiras de prontidão dos esperando do lado de fora, todas de verde. vieram com a tesoura cortar o cordão – estava muito frio, ele precisava entrar e ser aquecido rapidamente. esperem. quero que seja o pai. volta o pai pra dentro do carro, corta o cordão e Antônio segue, no colo dele, com as enfermeiras ao lado entrando na casa. corri atrás, lembro de ver meus pés brancos pisando no asfalto correndo pra não perder meu filho de vista com o vestido cheio de sangue. tentaram me parar – era perigoso andar, correr, podia ter um queda de pressão. fugi. segui na rota. me pegaram no caminho com cadeira de roda, foi até mais rápido. chegando, ele veio direto pro meu peito. e seguimos dançando até hoje.”

 

Mulher banana

 

 

 

“Fui entendendo como não aprendi até hoje, nessa idade, a pedir ajuda. e vi como isso é algo raro na minha família. pedir ajuda, falar de sentimentos. eu quero poder pedir ajuda, eu quero fracassar, eu quero não dar conta de tudo e não ter culpa por isso. A gente ressignifica nossa infância também criando os filhos, olhando as feridas, as faltas que nem sabia que eram faltas. O processo de re-ver e re-apropriar do corpo eu estou até hoje pós filho e pandemia sedentária. Criar minha filha também é criar eu mesma, como disse alguém. E criar aos poucos um mundinho melhor para a gente e os filhos. Sementes são futuro!

 

O que fazemos dos nossos encontros? Quero ser lugar de força, acolhimento e conexão com outras.
(no puerpério e na pandemia, a vida era em looping e eternamente cansativa)
A melancia talvez seja para escorrer as águas represadas, dispositivo para chorar, sangrar.”

 

Mulher Melancia

 

 

 

No último dia, dançamos:

 

“algoritmo é uma fábrica de criar bolhas”

“ouvir o som do tomate foi muito bom”

“cada corpo é uma galáxia ambulante”

“muito bom não precisar ser criativa”

 

Todo este material foi gerado coletivamente por: Cleyde Silva, Eloi Diego, Frida Abraão, Wilena Weronez, Thayra Tulipa, Teresa Moura, Renata Alonso,  Mirian Dascal, Letícia Sekito, Letícia Nabuco, Katiane Negrão, Drica Possan, Loren Fischer, Eva Maria, Isis Teles, Jaqueline Bezerra, Denise Neira, Janaína Lobo.

Para ler ouvindo nossa playlist coletiva aqui!